OPINIÃO | Apesar de tudo, eu amei Night City

Se você joga videogames (e não estava vivendo isolado em uma caverna no meio das montanhas por causa da COVID-19) certamente conhece a história do desastroso lançamento de Cyberpunk 2077. O game que seria a magnum oppus da CD Projekt Red (mesma desenvolvedora por trás da série The Witcher) saiu para consoles e PC no final de 2020 com uma série de bugs e glitches que tornavam o título praticamente inutilizável para a maior parte dos jogadores.

Felizmente, no meu caso, na época que eu havia comprado o game também tinha tido a sorte de adquirir um PlayStation 5 e, surpreendentemente, o jogo tinha uma performance ótima no console. No entanto, nem mesmo todo o poder eletrônico do PS5 era capaz de evitar bugs e glitches eventuais no game mas, em geral, não tive grandes dificuldades para completar as missões do jogo e a experiência foi muito satisfatória.

É correto afirmar que o lançamento desastroso e o marketing mentiroso da CD Projekt Red criaram uma fama tão ruim em torno do game que é difícil (para não dizer impossível) olhar Cyberpunk 2077 além de seus problemas. Porém, quando se é possível ter uma experiência razoável com a jogabilidade e apreciar o mundo, história e personagens absorvendo todas as suas essências, é impossível não amar Night City.

Muito mais do que máquinas e neon

Apesar de ser um bom instrumento ludo narrativo colocar os tutoriais do game inseridos de forma orgânica nas missões introdutórias, Cyberpunk 2077 exagera um pouco no tempo gasto nelas até que o jogador possa, finalmente, caminhar livremente por Night City.

A primeira vista, a cidade futurística criada pela equipe da CD Projekt Red não se destaca quando comparada a outros locais da ficção. Se você já assistiu Blade Runner, Metropolis ou mesmo Akira, Night City parece apenas uma cópia dessas megalópolis para o mundo dos games. Além disso, ao se observar os arranha-céus gigantes e os anúncios neons piscantes, fica evidente a inspiração que os desenvolvedores tiveram com Blade Runner.

Na verdade, acredito que não poderiam ter escolhido uma fonte de ideias melhor do que o clássico da ficção científica de Ridley Scott. Afinal de contas, Blade Runner é a definição do gênero “cyberpunk” nos cinemas. E as inspirações não ficam apenas no visual de Night City mas também em alguns dos personagens que você encontra pelo caminho, como a jovem Misty que é muito similar a personagem Pris, de Daryl Hannah.

Com tantas características inerentes a outras obras, muitos poderiam pensar que Night City é apenas um local unidimensional, já que o centro é a primeira parte que o jogador pode conhecer da cidade — e também aquele que irá ficar perambulando por um bom tempo. Porém, uma vez que o jogador pode conhecer os outros bairros da cidade, esse é o momento em que o universo particular de Night City se abre diante de seus olhos e as possibilidades de exploração se tornam quase infinitas.

A “cidade dos sonhos”

Dizer que Night City é uma protagonista de destaque(se não “a personagem principal) de Cyberpunk 2077 não é nenhum exagero. Seja da forma como você desenvolver sua vida como V, todas suas ações, suas missões, seus romances e sua vida virtual estão intrinsicamente ligados à Night City. Pensar nesse game sem esse personagem pulsante que permeia toda a jornada do protagonista é muito mais do que apenas visualizar atores sem um palco para atuar: é como assistir uma peça sem um dos personagens principais.

Mas Night City é muito mais do um elemento narrativo importante para a trama: ela é um prato cheio para os olhos! Em contraste com os arranha-céus de formas brutas e as rodovias sem fim do centro da cidade, Japantown (um dos bairros de Westbrook), por exemplo, é uma localidade altamente influenciada pela cultura japonesa. Aqui, o tradicional se mistura com perfeição ao tecnológico com jardins e parques bem-cuidados ao lado de prédios de última geração carregados de anúncios holográficos.

Visualmente falando, Japantown definitivamente é o bairro mais bonito de Night City e repleto de localidades interessantes para visitar. Além disso, a campanha principal do game foca até demais nesse local, em detrimento dos outros locais da cidade. No entanto, nem mesmo todas luzes coloridas de lá são capazes de ofuscar o “charme bruto” dos outros distritos da cidade como Pacifica ou Santo Domingo.

Mais afastados do centro de Night City, esses bairros de periferia não tem todo o glamour tecnológico que se poderia esperar de uma cidade futurística. Neles encontramos o verdadeiro significado de distopia tecnológica do mundo de Cyberpunk 2077. Enquanto bairros ricos como North Oak hospedam mansões luxuosas e CEOs de grandes empresas, Pacifica por exemplo abriga a maior parte da população latino-americana de Night City que vive em condições precárias em um distrito abandonado pelo governo e pelas corporações.

Viajar por Night City é perceber que qualquer semelhança com a nossa realidade não é mera coincidência. Os paralelos com a sociedade do século XXI estão escancarados nas entrelinhas desse microcosmos digital e, ao mesmo tempo, dispostos bem diante de nossos olhos para os jogadores mais atentos.

Além de Night City

Perto do fim da campanha principal do game eu estava tão imerso no mundo de Cyberpunk e nos diferentes ambientes de Night City que, quando o guia oficial do game apareceu com um desconto muito atrativo não pensei duas vezes em adquiri-lo.

Tudo bem, quem me conhece sabe que tenho uma queda por livros desse estilo (tenho uma estante quase cheia deles), mas o guia de Cyberpunk é uma obra belíssima e perfeita para quem está interessado em mergulhar no universo distópico criado pela CD Projekt Red. E sim, o livro não tem erros de impressão ou gramaticais, felizmente. Os problemas técnicos ficaram apenas reservados para o jogo.

Para aqueles que são aficionados pelas mecânicas de RPG, esse guia de Cyberpunk 2077 é um prato cheio para realmente “tirar o suco” da jogabilidade do título. Nele você encontra informações sobre todos os locais de Night City, as gangues, gírias e termos, itens de inventário e detalhes sobre todas as missões do game com dicas preciosas para alcançar os cinco finais diferentes que a história oferece.

Porém, no meu caso eu fiquei mais interessado nos detalhes referentes à história e seus personagens — e principalmente com as incríveis artes em alta qualidade que estampam diversas páginas do material. Se fosse possível (e financeiramente viável), seria fantástico poder enquadrar boa parte das artes e deixá-las em exibição nas paredes.

Never fading away

Seja no coração oriental de Japantown ou nas escaldantes areias de Santo Domingo, mergulhar e viver no microcosmos de Night City é uma experiência incrível no mundo do entretenimento. Ainda não sabemos quando Cyberpunk 2077 terá boa parte de seus problemas corrigidos e nem se ele terá chance de se redimir algum dia.

Porém, como um jogador que chegou no final da história de V sem passar muitas dores de cabeça com bugs ou glitches, posso dizer que Night City ainda esconde muitos segredos e detalhes que eu estou curioso para descobrir.

Por Luís Antônio Costa

O Ponto e Vírgula é uma página que pausa a rotina cotidiana para falar de tudo e mais um pouco, por Luís Antônio Costa.

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